Filtrar conteúdo: Todos (101)  
  • 

    Reportagem / Os 60 anos da vitória inesquecível da Brigitte nas Mil Milhas Brasileiras

    Seção: Clássicos
    Data: março 10, 2017
    Autor: Paulo Afonso Trevisan

    Sem dúvida um dos carros de corrida mais importantes do Brasil, de todos os tempos, é a Ford Coupé 1940 Carretera de Catharino Andreatta. Correu e venceu dezenas de corridas com o nº2 nas mãos desse piloto mito e batendo recordes

    Vitório Andreatta na inauguração do Autódromo de Tarumã à bordo da Ford Coupé Nº 2 (Brigitte)/ FOTO MUSEU DO AUTOMOBILISMO BRASILEIRO

    Vitório Andreatta na inauguração do Autódromo de Tarumã à bordo da Ford Coupé Nº 2 (Brigitte)/ FOTO MUSEU DO AUTOMOBILISMO BRASILEIRO

    Na década de 50 até o início dos 60, o automobilismo Gaúcho era o mais forte e competitivo do país, com uma programação intensa de corridas em circuitos, estradas e pavimentos dos mais variados. Andando no inicio dos 50 em velocidades de até 175 km/h e evoluindo mecanicamente para atingir até 220km/h em Interlagos, e superando 240 km/h, como Vitório Andreatta comprovadamente andou em 1963. Automobilismo de bravos e em carros que devemos reconhecer não tinham suspensões eficientes e bons freios. Pouca segurança e se fica imaginando quantas vezes desceram de pé enfiado a Serra do Rio das Antas em estrada de cascalho, e na serra gaúcha na antiga BR116, com trechos assustadores até nos dias de hoje. Foi esse automobilismo de carros de turismo preparados, que Wilson Fittipaldi, radialista famoso da PanAmericanca (pai de Emerson e Wilsinho) junto com Eloi Gogliano, do Centauro Moto Clube, buscaram para abrilhantar e viabilizar uma grande corrida em São Paulo no autódromo de Interlagos, e cujo automobilismo estava opaco. Assim que com o apoio dos gaúchos calejados de pilotagem constante, já em 1956 iniciou-se a sequência do que viria a ser o grande cenário das Mil Milhas Brasileiras. Assim que na prova inicial largaram 31 carros que rodaram 16h e 16 min. Em 1957 já largaram 42 carros mostrando o sucesso que representava e o apoio da incipiente indústria nacional de carros e autopeças.

    Isso completou em dezembro último 60 anos! Um grande feito que não pode ser esquecido. E já antecipando este relato a corrida foi vencida por Catharino Andreatta e Breno Fornari na Carretera Ford 1940 nº 2, que ainda acabaria vencendo as provas de 1958 e 1959, tornando-se tri-campeã, além de dezenas de outras corridas de grande importância. Ela está no Museu do Automobilismo Brasileiro, em Passo Fundo”.

    Pódio das Mil Milhas em 1956

    Pódio das Mil Milhas em 1956

    O que representavam as Mil Milhas Brasileiras

    “Vencer esse desafio que envolvia velocidade, preparação refinada, suporte de box para correr 16 horas ininterruptas dentro da média da época, alto consumo de combustível e pneus, exigia muita preparação dos carros e pilotos. Uma organização das equipes e grande consumo de pneus e combustível; onde os custos equivaliam ao valor de um bom imóvel aqui em Passo Fundo, segundo fontes fidedignas. Uma epopeia que passou a ser a aspiração maior de qualquer piloto. Um dos maiores acontecimentos esportivos no país, e acompanhado através do rádio por milhares e milhares de pessoas, especialmente do sul do Brasil. Basta dizer que, quando passo-fundenses venceram em 1957 e 1961, nossa cidade parou para recepcionar os vitoriosos. E aconteceram grandes solenidades. Nas seis primeiras corridas, apenas em 1960 os paulistas quebraram a hegemonia dos gaúchos, que aí passavam a enfrentar as equipes de fábrica e, especialmente, a Alfa Romeo aqui denominada FNM, com seus carros JK com freio a disco e câmbio de 5 marchas. Os carros FNM-JK venceriam em 1960 por serem os únicos a disporem dos novíssimos e avançados pneus radiais Pirelli Cinturato, numa medida especial para rodas de 15,5 polegadas que não serviam nas carreteras com aros 15 ou 16. Incomparavelmente superiores aos convencionais Spalla di Sicureza que todos os demais usavam. Muito mais estabilidade, eficiência, durabilidade que significavam menos trocas de pneus.

    Além das três Mil Milhas, a Carretera ícone Ford nº 2 de Catharino Andreatta, atravessou o Rio Grande do Sul de ponta a ponta, correu pelas estradas do RJ/SP/PR/SC e várias vezes no Uruguai. Enfrentou a tudo e a todos até ser encostada na metade de 1962, quando Catharino vencendo a prova Porto Alegre/Torres, e tendo seu filho Vitorio conquistado o 2ºlugar na sua estreia com a Carretera nº4. Nos anos posteriores ainda retornou em alguns km de arrancada no início dos 70”.

    Catharino Andreatta em Interlagos em 1959

    Catharino Andreatta em Interlagos em 1959

    Àndreatta, à direita, investia muito alto nas corridas. Ao seu lado, o piloto Breno Fornari

    Àndreatta, à direita, investia muito alto nas corridas. Ao seu lado, o piloto Breno Fornari

    Escuderia Galgos Brancos

     

    “Essa Escuderia criada nos final dos anos 30 por Norberto Jung, que agregou outros pilotos gaúchos na época, sempre se caracterizou pelo galgo branco pintado na portas numa versão artística muito conhecida. Catharino e seu irmão Julio Andreatta carregaram essa bandeira, juntamente com seus filhos, Vitorio e Luiz Fernando, e a tornaram ainda mais famosa nas gerações seguintes. Hoje toda ela está aqui em Passo Fundo, com suas 4 carreteras sobreviventes para sorte nossa, senão vejamos: Ford nº6 de Julio Andreatta, Ford nº4 de Vitorio Andreatta, Chevrolet nº2 de Catharino e a Ford nº2 a famosa Brigitte. Apenas esta última ainda em processo de restauração e objeto deste artigo. O restante todas em condições de alto desempenho. E mais um carro de apoio Ford 1942 que era de Homero Zani o mais avançado mecânico de carreteras, que para a equipe que se transferia carregava vitórias àqueles pilotos. Todos carros autênticos e muitos troféus com aquilo que representaram estão bem cuidadas em Passo Fundo, ao lado das demais carreteras históricas que dispomos. Esse conjunto lendário chega a ser inacreditável estar reunido ao meu lado. Evidente que tudo isso com muito esforço e determinação, ano após ano. Catharino teve o filho Vitorio como grande piloto, e o irmão Julio (outro campeão) com seu filho Luiz Fernando. Todos bons de braço. Graças a este último a memória da família Andreatta foi guardada, e nossa conexão de amizade e paixão pelas carreteras fez com que nos últimos 20 anos fossemos transferindo e restaurando o acervo de carros para o Museu. As filhas de Catharino e Vitorio compreenderam também nosso propósito e nos liberaram troféus e imagens importantes. A Escuderia Galgos Brancos foi a de maior destaque nos anos 40/50 em automobilismo de turismo no país e está viva em nossas mãos, e trabalhamos para que seja perpetuada. Nesta carretera Ford nº2 também correram pilotos convidados para andar em dupla e sempre muito bem escolhidos, é o caso de Breno Fornari e Diogo Ellwanger”.

    Paulo Trevisan, ao lado do Troféu das Mil Milhas de 1956, e do capacete pertencente à Catharino Andreatta

    Paulo Trevisan, ao lado do Troféu das Mil Milhas de 1956, e do capacete pertencente à Catharino Andreatta

    Ford nº6 de Julio Andreatta, Ford nº4 de Vitorio Andreatta, Chevrolet nº2 de Catharino, todas restauradas e pertencentes ao Museu do Automobilismo Brasileiro. Local onde em breve a Carretera Ford nº 2 irá se juntar a suas irmãs

    Ford nº6 de Julio Andreatta, Ford nº4 de Vitorio Andreatta, Chevrolet nº2 de Catharino, todas restauradas e pertencentes ao Museu do Automobilismo Brasileiro. Local onde em breve a Carretera Ford nº 2 irá se juntar a suas irmãs

    Catharino Andreatta

    “Como não admirar um piloto que correu 32 anos! Estreou em Venâncio Aires em 1938 com um Ford modelo A (estamos com o troféu) e finalizou com Simca na inauguração do circuito de terra em Guaporé em 1969, já com problemas de saúde; e sempre entre os melhores. Sujeito inteligente, carismático, leal nas disputas contra adversários fortes, matreiro e um grande gozador, que nasceu e viveu para o automobilismo. O autódromo de Tarumã era para ter seu nome desde o início e só após muitos anos o reconhecimento ocorreu ao agregarem pelo menos a denominação Circuito Catharino Andreatta.  Registre-se que a Brigitte foi o carro madrinha na inauguração do Autódromo de Tarumã em 1970, guiada por Vitorio Andreatta homenageando o pai recém falecido. Catharino Se preparava para cada tipo e duração de prova, com estratégia e sagacidade, e antenado ao equipamento que dispunha e dos seus adversários. Nas palavras do piloto de carretera de Passo Fundo Daniel Winik, uma memória viva dos áureos tempos, com quem rotineiramente conversamos e absorvemos reminiscências de época, diz “o Catharino mantinha sempre o mesmo traçado, perfeito, e tratava a máquina nos seus limites. Seus motores V8, sejam os primeiros flathead Ford 59AB, 8BA e depois os Thunderbirds sempre afinados e mesmo antes da bandeirada se mantinha tranquilo e sem acelerações desnecessárias”.  Foi um grande campeão!

    Catharino se defrontou com os maiores pilotos brasileiros do seu tempo, daqui e do centro do pais sem nominar agora, e sempre competitivo. Dividiu curvas com os lendários pilotos Argentinos Juan e Oscar Galvez, o Uruguaio Hector Suppici Sedes e tantos outros. Correu, além desta carretera, de Força Livre (sua paixão) em outros carros da Standart, pequena cilindrada, Maserati 4CL, Ferrari Barchetta, Simca e até Berlinetta Willys, da equipe de fábrica em dupla com Bird Clemente numa combinação da velha e nova geração que se defrontava. Esta carretera foi aposentada em 1962 com a chegada da Chevrolet 1939 Corvette. A deixou para uso pessoal e da família durante muitos anos. E bem a frente vendida e após recomprada pelo sobrinho Luiz Fernando. Hoje até poderia estar restaurada como um carro original numa das centenas de coleções no país; porque as coupés sempre foram muito respeitadas. Mas não seria um fim digno e merecedor da sua trajetória espetacular”.

    Circuito Alto Taquari em 1952, bandeirada

    Circuito Alto Taquari em 1952, bandeirada

    Brigitte no Museu do Automobilismo Brasileiro

    “Com o passar dos anos, e já tendo participado conosco em vários eventos, e até passado por revisões em nossas oficinas, acabou vindo para o Museu. É um diamante na coroa que representa nossa mega coleção de carreteras; 11 com o carro de apoio. Não existe nada nesse patamar de preciosidade no Brasil, e está aqui em Passo Fundo onde o automobilismo sempre teve e tem tradição.

    Tanto que é uma rara cidade no pais onde os empresários apoiam uma revista sobre automóveis como é esta Potência Máxima, que completou em dezembro último 5 anos de existência. E o persistente editor Claudio Crescencio aceitou e se entusiasmou com a sugestão de falarmos aqui da Brigitte. Ele sabe o que isto representa”.

    Paulo Trevisan e o editor da revista Potência Máxima Claudio Crescêncio, que fez questão de acompanhar o processo de restauração da Brigitte.

    Paulo Trevisan e o editor da revista Potência Máxima Claudio Crescêncio, que fez questão de acompanhar o processo de restauração da Brigitte

    Programa de restauração

     

    “O sobrinho Luiz Fernando Andreatta a quem somos gratos, só nos transferiu o carro por se tratar do Museu e dispormos de estrutura para deixá-la nas condições de época. Ao decidirmos deflagrar a restauração e estarmos desmontando totalmente a coupé, nosso mecânico chefe, o genial Marcos Horst adoeceu e posteriormente faleceu, o que afetou até hoje toda a nossa programação. Em 2013/14 efetuamos uma decapagem geral e restauração da carroceria, retirando apêndices instalados ao longo de décadas. No segundo semestre de 2015, mais uma pegada para alinhar chassis e instalar a suspensão preparada da época em que corria. Acertadas as molas e amortecedores, freios, e retificado o motor Ford 302, que falta instalar com o resistente câmbio de Jaguar 4 marchas que corria.

    Desde 1997, por circunstâncias, tínhamos a suspensão dianteira de corrida completa da carretera. Repleta de furos e retrabalhos para retirar peso, com panelas de freio de alumínio similares às Argentinas e produzidas por Breno Fornari. Enfim, foi implantada no chassis restaurado. Na carroceria jateada se identificara exatamente os danos decorrentes da única capotagem parcial de Catharino (prova 4ª Festa da Uva em 19/03/61) que atingiu o lado direito. E outros indícios notáveis de autenticidade. Registre-se que em corridas de carreteras se identifica perto de 40 capotagens e apenas uma fatal com o saudoso Antoninho Burlamaque.

    Pretendemos em março de 2017 retomar os trabalhos no carro. Neste tipo de restauração é exigido sempre meu envolvimento pessoal direto. Sempre foi assim. Carros de corrida de época tem especificações próprias que exigem cultura de época e saber o que se está fazendo para não descaracterizar ou cometer gafes. Vivência de restauração é obrigatória, ainda mais tratando-se deste mito”.

    brigitte 12

    Única capotagem de Catharino em 1961

    Única capotagem de Catharino em 1961

    brigitte 14

    brigitte 15

    brigitte 16

    BRIGITTE 17

    BRIGITTE 18

    Resumo de vitórias

    Apenas para dar uma ideia dos resultados reais e efetivos das prováveis 101 provas de que participou e com cerca de 30 vitorias, a seguir alguns grandes destaques:

    1º Lugar: Mil Milhas Brasileiras – Interlagos 1956, 1958 e 1959 e 2º em 1960;

    Campeã Gaúcha com Catharino Andreatta em 1951,1956 e 1959

    Campeã Brasileira em 1949,1956,1958 e 1959.

    Quem teria dúvidas da importância deste carro para o automobilismo brasileiro?

    Comentários