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    Reportagem / Cinquenta anos de desafio nas pistas

    Seção: Fórmula Truck
    Data: setembro 19, 2015
    Autor: Luciano Monteiro/ Grelak Comunicação

    Pedro Muffato se aproxima de cinco décadas de dedicação plena ao automobilismo de competição

    Pedro Muffato inscreveu seu nome na história do automobilismo brasileiro pela longevidade da carreira. Aos 75 anos, está prestes a completar 50 anos de atividade no esporte, marca que poucos pilotos brasileiros puderam ou podem ser orgulhar – Wilson Fittipaldi Júnior, por exemplo, atingiu as cinco décadas de envolvimento com as corridas em 2008, quando disputava o Brasileiro de GT. “De tudo que o automobilismo pode proporcionar eu fiquei sem experimentar muito pouco”, comentou, em maio último, depois de testar pela primeira vez, no autódromo de Cascavel, um carro do Porsche GT3 Cup.

    A vida no automobilismo começou para Muffato no final da década de 60, participando das corridas promovidas nas ruas de Cascavel, no Paraná. No dia 4 de dezembro, vai completar 49 anos de carreira. Pedro teve envolvimento direto com a construção do autódromo cascavelense e comandou a inauguração do traçado asfaltado, em abril de 1973, na condição de prefeito. No ano seguinte, conquistou o título brasileiro da Divisão 4, equivalente, para os padrões da época, à atual Stock Car.

    O início da carreira aconteceu logo depois de Muffato chegar a Cascavel vindo de Irati, cidade onde nasceu e cresceu trabalhando na roça plantando batatas. O que, de certa forma, contribuiu com o trabalho que teria nas pistas. “Aprendi mais dirigindo um caminhão F-6 ano 1951 do que nas pistas”, declarou, na década de 80. “Eram dois dias de viagem, trazendo mercadoria de Curitiba em estrada de terra que, às vezes, ficava mais lisa que sabão. Quando o bicho quebrava, então… A gente tinha de se virar, consertar até com os dentes, porque ferramenta era coisa que não tínhamos por perto”.

    Em 1966, Pedro foi convidado por Willy Tien para ser seu parceiro na disputa das 300 Milhas de Cascavel. Para quem costumava assistir às corridas nas ruas da cidade sentado no muro do cemitério, o convite foi uma espécie de prêmio. “Era a única diversão da gente. Eu só fui chamado para correr porque o Willy estava de olho na minha irmã e, logicamente, queria se aproximar mais”, recorda o piloto, aos risos. Foi o início de uma carreira que se aproxima do Jubileu de Ouro.

    Vários capítulos desta história foram marcados por momentos únicos, como a atuação de Muffato em competições no Paraná com um carro com dois motores. Era o protótipo Bimotor, idealizado em Cascavel por Deoclides Carpenedo. “Era uma loucura controlar o bicho, com dois aceleradores, duas embreagens e duas alavancas de câmbio”, recorda. O Bimotor, um dos marcos da história do automobilismo de Cascavel, foi alvo de um trabalho de restauração na década passada. Tem sido utilizado em exposições e exibições em eventos na cidade.

    MUFFATO 4

    Pódio de F-3 em Londrina (1993) com Helinho Castroneves/ FOTO SÉRGIO SANDERSON

    O prefeito

    Muffato, na década de 70, ficou conhecido como “o prefeito mais veloz do Brasil”, diante do fato de conciliar a atuação nas pistas com a função política, para a qual foi eleito com 10.800 votos em 1972 pelo antigo MDB, derrotando outros quatro candidatos num colégio eleitoral formado por 18.200 eleitores. Quatro anos antes, de 1969 a 1972, fora vereador na cidade, tendo iniciado sua campanha uma semana antes da eleição. Paralelamente, ganhou projeção por ter inaugurado, como prefeito, o traçado asfaltado do Autódromo Internacional de Cascavel, em 22 de abril de 1973.

    Embora tivesse participação direta no advento do autódromo, Muffato sempre fez questão de frisar que a obra era fruto do esforço de um grupo de abnegados e que todos os méritos deveriam ser endereçados a Zilmar Beux, homem a quem atribui o sucesso na iniciativa de se fazer uma pista de corridas na cidade. “Se Cascavel tem um autódromo, deve isso ao Zilmar. Ele passou dois meses sem sair de dentro da área que aquele grupo comprou para construir um autódromo, dormia sentado em retroescavadeiras, queria ver aquilo pronto”, conta o piloto. Beux morreu em dezembro de 2005.

    Foi justamente na pista de Cascavel, em 1996, que Muffato sofreu o mais grave acidente de sua carreira no automobilismo. Durante uma corrida de Fórmula 3, foi tirado da pista pelo também paranaense Sérgio Paese Filho, seu companheiro de equipe – foi a única vez em que Muffato atuou na categoria pela Amir Nasr Racing –, e as consequências da forte batida no barranco à beira da pista o deixaram entre a vida e a morte por quase três semanas na UTI do Hospital Albert Einstein, em São Paulo. Reabilitado depois de alguns meses, desistiu da vida de piloto e retomou seu convívio com o automobilismo como comentarista das provas da F-3 nas transmissões da ESPN Internacional.

    Prefeito de Cascavel nos anos 70 / FOTO ARQUIVO GRELAK COMUNICAÇÃO

    Prefeito de Cascavel nos anos 70 / FOTO ARQUIVO GRELAK COMUNICAÇÃO

    O construtor

    A transição da década de 70 para a de 80 foi marcada, na carreira de Pedro Muffato, pela participação na Fórmula 2 Codasur, precursora da Fórmula 3 sul-americana, que hoje é tratada como Fórmula 3 Brasil. Além de atuar como piloto, obteve destaque como construtor de carro. O trabalho que desenvolveu na construção dos chassis Muffatão, em Cascavel, valeu-lhe o apelido de “Colin Muffato”, atribuído pela revista “Placar” numa alusão clara ao inglês Colin Chapman, lendário fundador da equipe Lotus de Fórmula 1.

    A empreitada da construção dos chassis Muffatão, batizados inicialmente como M1, foi motivada pela indisponibilidade de carros para a F-2 brasileira, então a categoria mais veloz do país. “Nós tínhamos uma falsa Fórmula 2. Na verdade, era a mesma antiga VW 1600, com alguma liberdade de preparação. O que eu fiz foi fabricar um carro que tornasse a categoria uma novidade, mais brava e competitiva”, declarou na época. Muffato mandou seus mecânicos para um estágio de 45 dias na Argentina, nas oficinas de Oreste Berta, considerado um mago na construção de carros de corrida.

    A obstinação não parou por aí. Muffato, que assumiu a veia de construtor num momento em que demonstrava profunda desilusão com a vida política, também “importou”, temporariamente, três técnicos que serviam à estrutura de Berta para auxiliar e supervisionar o trabalho de construção dos chassis Muffatão em Cascavel, num pequeno galpão com 352 m² numa ladeira de terra vermelha da Vila Cancelli.

    Na estreia do carro, em 1981, Muffato largou em quinto, assumiu a liderança antes da primeira curva, abriu mais de 20 segundos de vantagem e abandonou a uma volta do final, com um cabo da bateria solto. Mas o sucesso do novo carro estava sacramentado e, no mesmo dia, houve uma série de encomendas de modelos iguais. “Eu não visava lucro, um empate na receita já me satisfazia. Se fosse egoísta, teria fabricado só dois carros para mim”, era o que dizia. Em 1982, Ronaldo Eli, pilotando um Muffatão, foi campeão brasileiro da F-2.

    Muffato com José Carlos Pace (óculos) na F1 anos 70 / FOTO ARQUIVO GRELAK COMUNICAÇÃO

    Muffato com José Carlos Pace (óculos) na F1 anos 70 / FOTO ARQUIVO GRELAK COMUNICAÇÃO

    O parceiro

    Em sua trajetória no automobilismo, Pedro Muffato fez uma legião incontável de amigos. “Os amigos que se faz no automobilismo valem bem mais do que os troféus”, costuma dizer. A lista de amizades destaca um nome muito conhecido do público brasileiro: Nelson Piquet. O estilo extrovertido e brincalhão e a paixão pelo automobilismo resultaram numa identificação forte entre os dois ainda nos tempos de Super Vê, no início dos anos 70. Amizade que permanece inabalada até os dias de hoje.

    Em 1992, Piquet recuperava-se do acidente que lhe esmigalhou os pés nos treinos para as 500 Milhas de Indianápolis. Uma equipe da Rede Globo entrevistou-o no jardim de seu apartamento nos Estados Unidos. As imagens levadas ao ar mostravam a poucos metros dali um despreocupado Pedro Muffato preparando um churrasco para o almoço com os convidados da imprensa. Coube a Muffato, também, proporcionar ao amigo um dos momentos mais marcantes de sua trajetória nas pistas.

    Ainda em 1992, 16 anos depois de ter vencido a prova “Cascavel de Ouro”, Nelson recebeu de Pedro o convite idealizado pelo então prefeito de Cascavel, Salazar Barreiros, para ir à cidade receber uma réplica do troféu da conquista de 1976 – o original entregue no pódio daquela corrida havia ficado com Gilberto “Giba” Magalhães, preparador de seu carro. Convite aceito, Nelson desembarcou na cidade na véspera da corrida. Trazia, consigo, o capacete que usava quando bateu em Indianápolis, ainda com as marcas do acidente – capacete que foi doado para uma rifa cuja arrecadação foi destinada ao Natal das crianças carentes.

    A volta de Piquet a Cascavel coincidia com a realização da etapa final do Sul-Americano de Fórmula 3, também válida como Cascavel de Ouro daquele ano. Ainda andando com auxílio de muletas e sem esconder a dificuldade que o esforço lhe trazia, o tricampeão de F-1 tinha como único protocolo receber o troféu das mãos do prefeito. Mas Muffato queria mais, e convenceu o amigo a ocupar o cockpit de seu Ralt/Mugen-Honda número 8. Algumas voltas pela pista, as primeiras depois do acidente, tornaram aquela manhã de 20 de dezembro histórica para o automobilismo brasileiro.

    Com o amigo Nelson Piquet/ FOTO SÉRGIO SANDERSON

    Com o amigo Nelson Piquet/ FOTO SÉRGIO SANDERSON

    O setentão

    É possível que Pedro Muffato, no auge de sua carreira, não tenha imaginado que estaria competindo em plena forma aos 75 anos. Em fevereiro de 1984, por exemplo, conquistou o terceiro lugar no GP Interamericano, em Daytona, pilotando um Oldsmobile. Meses depois, comentando a prova para a “Placar”, disse que ele e Mario Andretti, ambos quarentões, “eram os bebês naquela guerra”. Pedro mostrou-se impressionado ao constatar que havia pilotos beirando os 60 anos demonstrando o que viu como “garra indescritível”.

    O acidente na F-3 parecia ter representado o fim da carreira de Pedro Muffato como piloto. Até que no ano 2000, atendendo a convite do promotor Aurélio Félix, participou de uma das etapas do Campeonato Brasileiro de Fórmula Truck, em Londrina. Era o reinício de uma das trajetórias mais notáveis do automobilismo nacional. Desde então, tem empreendido um trabalho consistente na categoria. Em 2006, valendo-se da competitividade do caminhão eletrônico da Scania, alcançou conquistas inéditas na categoria – a primeira pole e a primeira vitória, na segunda etapa, em Fortaleza.

    O vovô-menino / FOTO VANDERLEY SOARES

    O vovô-menino / FOTO VANDERLEY SOARES

    Na temporada de 2007, Muffato disputou cinco corridas – em outras, em caráter excepcional, seu caminhão foi pilotado por David Muffato, seu filho, campeão da Stock Car quatro anos antes. David foi o único piloto da história a conciliar as duas competições. Na última das corridas que disputou naquele ano, Pedro largou em 22º e terminou em quinto, mesmo debilitado fisicamente por uma forte virose – desceu do pódio sentindo-se mal e foi levado para o ambulatório do autódromo. Depois disso, uma sequência de procedimentos clínicos decretou seu afastamento temporário das pistas.

    De volta à ativa na Fórmula Truck desde o início de 2008, Pedro Muffato segue sua trajetória nas pistas. Em 2015, cumpre sua 15ª temporada na categoria dos caminhões e é um dos pouco a ter pontuado nas dez meias-corridas, particularidade do novo regulamento. A disposição plena para seguir competindo traduz sua paixão pelo esporte. Paixão demonstrada, anos atrás, num pingue-pongue com um repórter. “Por que o senhor perde tempo com o automobilismo?”, perguntou o jornalista. “Pelo contrário, eu ganho tempo com o automobilismo”, respondeu. Este é Pedro Muffato.

    Pedro Muffato ao lado do filho David Muffato/ FOTO ORLEI SILVA

    Pedro Muffato ao lado do filho David Muffato/ FOTO ORLEI SILVA

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