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    Reportagem / A Voz das Pistas

    Seção: Entrevistas
    Data: abril 10, 2019

    Se não fosse locutor, ele seria um cantor de Reggae ou vocalista de uma banda de Rock. Estamos falando de Ademir Moreira, o “Perna”, como todos o conhecem. Nessa matéria especial, prestamos homenagem ao mais importante locutor do automobilismo do Rio Grande do Sul, que aos 63 anos de idade, pretende ficar, ainda, por muito tempo envolvido com o automobilismo. Por isso, não iremos fazer narrativa, e vamos deixar que ele conte a sua história

    “Estou dando essa entrevista para vocês aqui de Florianópolis, em Santa Catarina, onde hoje moro com toda a minha família, e aqui pretendo ficar até o fim da vida. Sentado no meu jardim, olhando para a lua cheia, coberta parcialmente pelas nuvens, me faz passar um filme pela memória, e vou ter o prazer de compartilhar com vocês. Tudo comigo nasceu na pista. Com 19 anos fiz a minha estreia com piloto de Motovelocidade, em 1975. Tive uma carreira longa para um piloto de motos, quando competi durante 11 anos. Participei nesse período do campeonato Gaúcho em diversas categorias, posteriormente do Brasileiro em 1979 e Copa Marlboro em 1986.

    Conquistei três títulos ainda no início da minha carreira. Em 1976, com minha Yamaha 100 cilindradas ganhei o titulo das Fronteiras, que foi uma etapa única Internacional realizada no Uruguai, contando com a participação de muitos pilotos que participavam, inclusive de campeonatos latino-americano e Mundial de Motovelocidade.

    Ainda em 1976 com a 100 cilindradas conquistei o título de vice-campeão gaúcho na categoria, título esse muito difícil, batalhado, e que me deu muita satisfação. A minha maior conquista foi o Campeonato Gaúcho de 1977, na categoria de 50 cilindradas, categoria base do motociclismo e foi um título sensacional. Foi o ano que me deixou marcado, as histórias que eu tive, as lições que aprendi naquela temporada foram marcantes, e ganhei o campeonato por um ponto de diferença. Foi uma temporada inesquecível no motociclismo, e acabei encerrando a carreira em 1986, na Copa Marlboro, quando a Yamaha lançou a RD 350, mas eu já estava em final de carreira, já tinha família com filho, na época um menino com quatro anos e estava na minha hora de parar”.

    PERNA PRINCIPAL

    CARREIRA DE LOCUTOR

    “A pista foi uma bagagem que eu trouxe, usada até hoje para o meu trabalho como locutor. Mas confesso que nos primeiros dois anos, após parar de correr, fiquei meio desorientado, sem uma identidade e sem saber quem eu era. Nesse período voltei às atividades anteriores, que era trabalhar com vendas de veículos, mercado que serviu para ganhar minha vida.

    Mas em 1988, quando acompanhava uma etapa do Campeonato Gaúcho de Motovelocidade, conversava com o piloto Cláudio Salgado, que tinha sido durante as temporadas de 1979 um dos meus maiores rivais na pista.

    Na época não éramos amigos, mas sempre tínhamos um respeito um pelo outro. Acabamos fortalecendo essa amizade e comecei a acompanhá-lo em provas de Gaiolas mini tubulares com motores de moto, e inclusive até em provas de Jet Ski. Além do Salgado, outro grande piloto que sempre disputava comigo era Pedro Vieira, sempre fomos bons amigos. Mas nesse meio sempre fui fazendo grandes amizades.

    Em uma das conversas com Salgado, ele cita uma prova que disputávamos em 1979, a qual tinha a narração na época, de dois locutores em Tarumã, que eram o Sérgio Braga e Marcos Vanderlei, que faziam as locuções no meu tempo de piloto. Quando ele falou isso, confesso que olhei para a torre de Tarumã e, naquele momento, parece que bateu uma paulada na minha cabeça, velho. Eu já tinha uma experiência de rádio poucos meses antes na rede Pampa em Porto Alegre, e subi imediatamente naquela torre, mas não tinha nada lá, só que a ideia foi instantânea. Procurei a secretaria do autódromo e fui buscar mais informações. Então, passei uma sacolinha e fiz uma vaquinha com todos os pilotos da Motovelocidade para poder alugar o sistema de som, já que não era muito barato.

    Após conversar com o responsável pelo som, o mesmo não poderia ficar de sábado para domingo, então acabei dormindo na torre, no meio de uma noite fria, em 1988, para colocar pela primeira vez no ar, a Rádio Pole Position. Narrei então pela etapa do Campeonato Gaúcho de Motos, que em minha opinião, até hoje, talvez um dos anos mais fortes da Motovelocidade Gaúcha.

    Confesso que depois disso me senti tremendamente entusiasmado, foi uma “esculhambação” (risos) maravilhosa, e todo mundo se divertiu muito, o que me motivou para uma próxima. Nessa época, algumas categorias do automobilismo estavam marginalizadas, esquecidas, ou estavam desativados. Foram então reativadas por um cara que veio de São Paulo, chamado Alan Magalhães. Esse cara foi importante naquela época para o cenário do Automobilismo Gaúcho, porque ele teve a capacidade de agregar categorias do automobilismo o e motociclismo, realizando durante alguns anos, eventos maravilhosos que enchia o autódromo de Tarumã no final de semana.  Tinha tanta gente para correr que, às 8 horas da manhã precisava abrir box para ter a possibilidade de todo mundo participar. Naquele momento, nos anos de 1988/1989 a coisa engrenou, porque me trouxe boa projeção e comecei a aceitar convites para fazer várias provas pelo Rio Grande do Sul, inclusive pista de terra, onde fazia praticamente todo o Estado. Mas quero deixar registrado que, aonde eu ia era sempre recebido com muito carinho, é bom frisar isso. Tenho um carinho imenso por cada lugar que passei com diversos circos.

    Vou confessar uma coisa; ao longo desses 31 anos de carreira, nem sempre acordamos no melhor momento, e teve dias que, talvez, um pouco mais chateado com alguma dor, por exemplo, eu conseguia tirar do público a energia que eu precisava naquele momento.

    Muita coisa no início da carreira foi um achado para mim, e ainda bem que eu soube visualizar as oportunidades, o meu conforto, pelo fato de não ser mais um piloto, mas continuar nas corridas. Um dos exemplos que eu tive no final da minha carreira foi um amigo particular, parceiro de pescaria, companheiro de pista, o Neco Fornari, que tinha atividade muito forte na área de preparação de motores, preparando para pilotos internacionais. Sou fã do Neco até hoje. Mas aquele trabalho dele na época, eu tinha e tenho como exemplo para a minha carreira”.

    Perna fez grandes amizades em sua carreira

    Perna fez grandes amizades em sua carreira

     

    PRINCIPAIS REALIZAÇÕES NA CARREIRA

     

    “Graças à Deus tive grandes realizações como locutor esportivo, muitas me deixam lisonjeado pelo que me foi oferecido, pela oportunidade que me foi dada, e eu fiz muitas coisas que me deram muito prazer como ser humano também. Tive boas participações em provas da Stock Car em Tarumã, e acho que fiz essa categoria por uns 15 anos aqui no Rio Grande do Sul. Sempre que visito as equipes sou reconhecido, e recebo muito carinho dessa categoria que não me esqueceu, e muitos trabalhos foram tremendamente interessante. A conexão que fiz junto à Rádio Gaúcha no Campeonato Mundial de Fórmula 1, quando transmitimos em Tarumã através de telões foi outro grande momento. Quando cheguei em Tarumã para uma prova noturna de arrancada, a equipe técnica da Rádio Gaúcha me procurou, e fiquei até surpreso, avisando que eu entraria ao vivo com uma conexão com Roberto Brauner, direto do Japão. Achei que seria um bate-volta rapidinho, mas o sinal se manteve por alguns minutos, e aquela volta o mundo que dei ali na torre de Tarumã, naquela conexão Rádio Gaúcha, foi um trabalho maravilhoso, me deu muita satisfação e projeção. Esses foram alguns exemplos, pois existiram muitos, inclusive com a Esquadrilha da Fumaça, que se apresentava junto com a Copa Shell de Marcas e Pilotos, trabalhei com a Fórmula Ford, onde tive o prazer de conhecer o Gilberto Santos, que foi por muito tempo locutor de Interlagos. Falo de pessoas que foram muito importantes, além de Luiz Carlos Lago, Beto Figueiroa do Curva do S, e também junto com Marcos Moschetta, nosso trabalho teve uma projeção incrível, dava a volta ao mundo. Meu trabalho com o Moschetta já tem mais de 20 anos, um profissional de extremo valor para o automobilismo Gaúcho e Brasileiro. Então tenho a honra de ter conhecido os melhores profissionais do Brasil. Não posso esquecer do Edgar de Mello Filho, que tive uma experiência fantástica durante a Fórmula Truck Européia quando se apresentou no autódromo de Tarumã. Uma coisa engraçada, a piada que larguei para o Nelson Piquet, também tenho certeza que ele jamais vai esquecer. Como o próprio Galvão Bueno, que pegou meu microfone aqui em Tarumã e falou com meu público, dizendo que tinha me apresentado para ele, quando ele já me conhecia pelo meu trabalho. Aquilo me deixou muito emocionado, porque o Galvão falou para todo o autódromo que eu era conhecido em todo o Brasil. Se eu começar a contar tudo para vocês, vamos ficar sem espaço nesta edição (risos)”.

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    UM POUCO DE LAMENTO

     

    “Como piloto, meu sonho na época era disputar provas internacionais na Motovelocidade. Mas os pilotos do Brasil estavam muitos distantes dessa realidade, e quem se destacava tinha muita dificuldade em se manter nos campeonatos mundiais. Então lamento não ter dito essa projeção internacional, não só eu, mas outros pilotos da minha geração, que fariam bonito no mundial.

    Outa coisa, Infelizmente, é que já perdi alguns amigos em competições, pois nosso esporte é de risco, e por mais que sejam minimizadas algumas questões, elas sempre existirão e esse percentual não pode ser retirado do programa. Essas situações são muito dolorosas, traumáticas e que me marcaram emocionalmente. Não há como a gente se confortar quando perdemos um amigo ou companheiro de equipe. Essa presença do perigo e da morte é constante no automobilismo e motociclismo. Todos sabem disso. O que me confortava na época, era minha intensidade de vida, e acho que quando o piloto parte, ele vai cheio de vida.

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    ONDE ESTÁ O PÚBLICO?

    “Na minha visão, o automobilismo sempre teve um público muito cativo, fiel e que esteve próximo diretamente com os envolvidos, principalmente na época das corridas de rua, quando podia conhecer e se aproximar dos pilotos. A imprensa na época dava muito destaque, se interessavam e até colocava isso em suas manchetes. Com isso acabava gerando no público uma expectativa muito grande, uma criação de ídolos. Eu me criei vendo corridas de rua, carregado pela mão do meu pai, e já naquela época, mesmo garoto já vivia intensamente aquilo.

    Mesmo com a transição das corridas de rua para os autódromos, o publico continuou prestigiando, exemplo disso foi a inauguração de Tarumã, em 1970. Parecia que o Rio Grande do Sul inteiro estava lá. Nos primeiros anos das 12 Horas eram milhares de pessoas nos acampamentos, ficava literalmente tomado de público. Diversos fatores têm levado a perder assiduidade desse público nas competições. Alguns desses são de responsabilidade do circo que promove, por exemplo. Percebi aos longos dos anos a ausência das famílias. Às vezes nossos autódromos não são bem preparados logisticamente, a ponto de pensar mais na esposa, nos filhos. Não que seja um fator determinante, mas talvez tenha afastado, por exemplo, pessoas quem tem crianças pequenas.  Tem que ficar o dia inteiro no autódromo e essas não tem muito que fazer. Esse é um dos problemas, mas o fator mais significativo é a distância da mídia com o esporte Brasil. Não falo isso só do automobilismo, mas sim de diversos esportes que são marginalizados pela imprensa e não tem espaço para propagação.  Acho que essa é a causa mais séria, mais forte da ausência de público. A mídia não tendo interesse pelos pilotos, não cria novos ídolos, e o grande público não sabe quem está disputando certo campeonato. Até existe algumas divulgações, mas são limitadas, não é a grande mídia. O que se tem hoje são blogs, pequenas produtoras de vídeos, mas tudo independentes. Hoje temos a possibilidade de transmissão pelo Youtube, que para nós é muito importante. Volto a falar no Moschetta, que juntos produzimos vários trabalhos, mas a manutenção é muito cara, e as próprias redes não dão a retaguarda.

    Não é nenhuma novidade que a grande mídia está voltada para o futebol, isso é fato, até em grupos de pilotos a gente fala de futebol, só que ninguém percebeu que o automobilismo no Brasil significa uma fatia de milhões de apaixonados. Na época do Airton Senna todo mundo acordava de madrugada para assistir a uma corrida pela televisão. Depois da morte dele, houve, principalmente no kartismo, uma explosão de adeptos.

    Para solucionar isso, vou dar a minha sugestão. Primeiramente os autódromos precisam se repaginar, não precisa muito. Criar novos espaços como pequenos museus com fotos e troféus, um playground com árvores nativas com balanços, e transformar num espaço familiar. Mas isso fica por conta dos promotores, responsáveis pelas praças esportivas. Não é muito, basta ter apenas um pouco de criatividade.

    Com relação à mídia, nós temos que invadi-la com mais informações, talvez com um pouco de dinheiro também, já que não vejo outra forma dela nos dar esse espaço. Os grupos de velocidade também devem promover ações sociais, esportivas, recreativas e se tornar mais coesos, para receber um pouco mais de atenção.

    Eu sempre falo de Tarumã porque estou acostumado, pois narro corrida há 30 anos nesse autódromo, mas estou me referindo a todos os autódromos, que tem recebidos provas maravilhosas, e o campeonato de Endurance é um espetáculo, por exemplo, pela qualidade tecnologia e pilotos que vem de todos os estados. Vivemos um bom momento por aqui, e isso tem trazido mais público, mas a própria categoria tem que ter o compromisso de cativar esse pessoal. É necessário que todos busquem uma alternativa para resgatar a popularidade, porque temos espetáculo para apresentar para eles”.

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    CONSIDERAÇÕES FINAIS

    “É necessário voltar um pouco no tempo, época em que meu pai me carregava pela mão pelas ruas do bairro Cavalhada, na expectativa de assistir as 12 Horas. Lembro-me de nomes como Chico Landi, Breno Fornari, era tanta gente! Minha vida passou, eu cresci, me tornei piloto e locutor. Meu grande achado durante toda essa trajetória foi ter conhecido aqueles pilotos da minha infância. Ao longo do tempo me aproximei de algumas famílias e as amizades foram bem próximas, divertidas e me dava muito prazer. Além disso, conheci aos poucos os filhos desses caras, uma geração inteira de pilotos, me trazendo uma recompensa enorme conhecer esses grandes nomes. Lembro-me do meu pai comprando as revistas e as primeiras páginas que eu procurava eram das corridas, e naquelas revistas da época, principalmente na Auto Esporte, da qual ele era assinante, as matérias narravam as disputas volta a volta, me dando muito argumento e muita técnica para narrar.

    Gostaria aqui de abrir uns parênteses. Houve um momento em que aconteceu uma mobilização de todos os pilotos, numa época em que eu passava por uma situação muito difícil. Mas uma notícia acabou caindo nesse grupo que eu considero uma riqueza, talvez a maior joia que temos hoje no cenário do automobilismo aqui no sul do Brasil. A existência dos Jurássicos, capitaneado por Roberto Giordani e seus confrades. Gostaria de poder mencionar esses, que foram muito importantes na minha vida. Esse grupo foi responsável por uma mobilização, durante ainda meu período de quimioterapia, me atraiu até Porto Alegre com o argumento de que eu seria homenageado pelos Jurássicos. Naquela oportunidade era o aniversário de Tarumã, e eu fui muito mais que homenageado. Fui integrado num grupo seleto, sagrado, de pessoas maravilhosas, que recebi de presente uma motocicleta Yamaha 250, e estou olhando nesse momento para ela, enquanto faço essas palavras. Eu aproveito as páginas da Revista Potência Máxima para externar minha gratidão. Sei que nas páginas impressas, esse registro ficará para sempre. Minha menção honrosa é para esse grupo de pilotos que tenho muito respeito. Valeu Jurássicos, o espaço de vocês está guardado no meu coração”.

     

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